Gabriela Oyara
Prosa

e-mail que eu enviei sem querer

por Gabriela Oyara

Acabei de ter um insight chapada. Sim, chapada, às 17:17, fazer o que? Vida de artista. Enfim, eu tenho mommy issues. E não me entenda mal, mas eu tava tão focada no daddy issues, que nem percebi que o maior issues de todos é com minha mãe. Choque. Tá, eu imaginava que eu tinha, mas eu achei que me afetava apenas em algumas coisas da vida, como:

• nunca estar completamente bem com o meu corpo
• ou sempre me sentir de alguma forma culpada

Mas sempre teve um problemão enorme bem debaixo do meu nariz: toda mulher com quem eu me relaciono me faz de otária.

Sim, todas elas.

Eu sempre vou ser extremamente compreensiva, sempre vou achar que quando elas me machucam, não fazem por mal, sempre acho desculpas pelas atitudes que me magoam, tento pagar de madura, finjo um sorriso, tento convencer mesmo de que isso não me afeta. Que não devia me afetar. Que elas não fazem por mal, que elas, na verdade, sofreram e sofrem muito, nunca aprenderam a lidar com seus sentimentos, elas são humanas. Podem errar. Eu? A porra da madre Teresa de Calcutá, sempre achando que eu vou as consertar. Não que eu ache que elas precisem mudar quem são, eu amo a individualidade de todas elas. O que quero é curar a dor de cada uma. Tento ser exatamente o que elas precisam de mim, mesmo que isso não seja eu. Tento caber na vida delas, sem ligar muito bem para o que eu realmente quero, apenas para ter qualquer tipo de afeto. Do mesmo jeito sempre agi com minha mãe.

Freud deve estar rindo, realmente é meio cômico que uma estudante de psicologia levou tanto tempo para perceber o básico. O tamanho do meu ego sempre acaba me surpreendendo, não importa o quão evoluída eu penso ser.

E quando falo todas, realmente são todas: de professoras, a chefes, a amigas, e as ficantes que só partiam.

Passei a vida toda tentando entender por que eu nunca dava sorte com mulher. Todas, todas, sem exceção, partiam. E sabem quem mais partiu? Sim, a minha mãe. Não literalmente, ela tá viva, mas ela foi a primeira a me deixar. Pesei o clima? Acho que não, isso aqui sempre foi uma grande tempestade.

Ela saiu de casa quando eu tinha 16. E foi isso. Não tive direito de escolha. E segue a vida. Ou será que não segue?

Claro que doeu, ela deu uma desculpa esfarrapada e me deixou. E adivinha quem mais fez isso comigo? Sim, as ficantes (e algumas chefes).

Eu sempre trato mulheres como deusas. Faço tudo que consigo pensar para fazer elas se sentirem a única mulher do mundo. Como se elas fossem o sol, e eu, a lua. Uma de minhas amigas me falou que sou muito boazinha um dia.

“não é porque são mulheres que elas são automaticamente boas pessoas”

É verdade. Talvez eu cai no conto cultural que mulheres são naturalmente mais iluminadas que homens, que somos mais calmas, que somos mais empáticas, compreensivas, eu caí no conto da mulher domesticada, logo eu que sempre critiquei esse conto. Esses discursos sobre mulheres só aparecem em duas situações:

• quando um homem quer perdão, então fala sobre como as mulheres são boas, e como eles erram, que errar é natural do homem, e que é natural a mulher perdoar e entender esse erro, que o natural da mulher é cuidar.
• quando querem julgar uma mulher que não aceita ter que se encaixar no que o padrão patriarcal dessa sociedade julga como natural para uma mulher, sempre vai existir uma exaltação daquelas que aceitam de bom grado serem domesticadas.

Sempre critiquei esse conto, mesmo assim, caí nele. Sempre achei que os homens iriam me machucar, porque essa é a natureza deles, e o histórico mostra que essa natureza é real.

Sempre achei que as mulheres cuidariam de mim, da mesma forma que eu cuidaria delas, da mesma forma que eu cuido da minha mãe, mesmo que ela ainda me machuque às vezes. Porque a natureza da mulher é cuidar, mas o histórico mostra que isso não é verdade.

minha bisavó
machucou minha avó,
que machucou minha mãe,
que me machucou,
e de alguma forma, eu machuquei de volta todas elas.

E então me machuquei outra vez, quando projetei sem nem ver, toda essa carga, em cima de todas as outras mulheres com quem me relacionei. Não só o desejo de cuidado, até porque isso é natural do ser humano. Mas continuar por perto de uma pessoa que não está agindo da forma que eu acredito que deveria ser tratada. Ser desrespeitada. Maltratada. E às vezes, por criar expectativas irreais para aquele tipo de relação, seja ela qual fosse: aluna, empregada, amiga, ficante.

Não que todas as mulheres do mundo sejam monstros, e eu uma coitadinha. Eu amo todas elas. Eu sinto orgulho de quem elas são, mesmo que não sejam perfeitas. É só que elas não são perfeitas, e isso é natural do ser humano, fato comprovado historicamente, seja você homem ou mulher, ou nada.

Ter demorado quase 27 anos para perceber que tenho mommy issues mais graves do que eu pensava, na verdade, não é tão chocante assim. Muitas vezes nós ignoramos a verdade que está na nossa cara, criamos uma realidade alternativa, uma fantasia, e juramos por Deus que é verdade. Isso também é natural do ser humano, eu sei bem, afinal sou humana, também posso errar.

Gabriela Oyara

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