Quando ela chegou, eu não fiquei surpresa
foram anos de dias de chuva e sol
Com o clima mudando bem quando eu estava prestes a me acostumar com a temperatura
Sua chegada foi anunciada pelos deuses
prevista em todos os calendários
uma chuva sem fim
um dilúvio que acabou com toda vida na terra
Precisei me acostumar com o mundo caindo em lágrimas
Precisei aprender a sair de casa na chuva
Enfrentar dia após dia, esperando pelo fim do inverno
Esperei tanto que parei de acreditar
Acreditar que um dia veria a luz do sol outra vez
Acreditar até mesmo que esse sol algum dia foi real
Presa numa tempestade nunca antes vista igual
Passei a acreditar também que não devia sair mais na chuva
Sair por quê? Para voltar mais molhada?
Lembrava de quando saia na chuva
E às vezes era surpreendida pelo sol
Achei que era delírio
As lembranças, o anseio por equilíbrio
Equilíbrio esse que nunca conheci
Sempre foi tudo ou nada
Ou um sol que cega quem olha em sua direção
Que queima, seca e mata
Que derrete toda a sanidade como quem derrete gelo
Ou então a chuva, que leva tudo que está no seu caminho
Arranca árvores, destruindo ninhos
Que lava a alma, até que não exista mais cor naquilo que um dia foi colorido
Mas por bem ou mal, os dias de sol e chuva intercalavam
E eu me acostumei com isso
Mas a grande tempestade durou anos
E parecia sem fim
Dias, anos, década
Uma década inteira sem ver o brilho sol
Sozinha num abrigo que construí
Feito com os galhos que cairam dos ninhos que a chuva derrubou
E parecia o meu fim
Alguns dias a chuva era tão forte que assustava
De longe você ouvia as trovejadas
Em outros mais fracas
E um dia então,
Durante o chuvisco,
decidi sair novamente na chuva
Decidi ouvir o delírio que me lembrava do sol
Ela não parou por um só minuto
Mas em alguns locais, encontrei abrigo
Mesmo que no fim do dia
Eu me molhasse outra vez no caminho de volta ao ninho
Fui desenvolvendo uma tolerância à chuva
Talvez ela não fosse minha inimiga
Talvez ela fosse nada,
a não ser uma mudança de clima
Aprendi que posso aprender a viver
Mesmo em uma tempestade sem fim
O poder que dava a chuva, ao sol, ao clima
Retornei para mim
Percebi que mesmo quando chove
Ainda existe o sol
Até quando não consigo ver
Pois se ele não existisse,
Eu não enxergaria nada,
Tudo seria escuridão
e não haveria a chuva
A tempestade então acabou
Mas o sol ainda não se mostrou
Não como ele era antes
Ele não queima, aquece
E às vezes, ainda chove
Mas a chuva não destroi mais
Como ela fazia antes, e durante
A tempestade
Gabriela Oyara
31-08-23
Ainda não sei quem sou
Vejo imagens distorcidas de mim
Versões do meu eu
Pequenas demais para assumir controle
Fracas demais para se sustentar
Me odeio por ser tão frágil
Descobri assim que é possível odiar o desconhecido
—
18/11/25
Eu não sou um ser definido
Vejo imagens de mim
Versões do meu eu
Pequenas partes que juntas assumem o controle
Com raízes que podem me levar ao céu
Amo até o meu lado mais frágil
Descobri assim que é possível amar o desconhecido.
Gabriela Oyara
Talvez você seja o demônio
Biblicamente o mais lindo dos anjos
Que me faz querer pecar nos meus dias mais santos
Talvez isso explique porque
40 dias me tenta
40 noites me atormenta
Só para me deixar morrer no deserto depois de tuas juras hereges
Talvez seja por isso
Que ao provar teu fruto proibido
Vi o despertar do alvorecer
Nos vi em campos correr
De volta ao paraíso perdido ao anoitecer
Talvez por isso no fundo não acredito em você
Desconfio da verdade de suas palavras
Me recolho em vigília entre taças
Só pra manter minha pureza intocada
Gabriela Oyara
Como dizia Belchior:
“Eu sou apenas um rapaz latino-americano
Sem dinheiro no banco sem parentes importantes
E vindo do interior”
E essa quem eu sou
Mas como seria diferente?
Venho de um povo que sofreu
Que sofre no presente
São mais de 500 anos
Mas nenhum colonizador pagou as dívidas que tinham com a gente
Do imigrante que foi enganado com a ideia de uma vida melhor
Ao negro que teve sua vida roubada e até hoje teme o pior
Eles levaram tudo que a gente tinha
Eles mataram quase tudo que a gente tinha
Minha ancestralidade chora todas as noites
E confesso que às vezes, choro com eles
Tanta dor, rancor
Tanto sofrimento causado
Pelo europeu sem pudor
E ainda ousam a falar que é mimimi
E rogo todo dia para isso deixe de ser assim
Pergunto a eles:
“Como vocês querem que eu me cale?
Quando no menor sinal de diferença que vocês vejam, fazem o maior alarde?
Julgam os negros, as mulheres e até quem não tem gênero
Como me calar diante de algo tão efêmero?”
Ao estudar psicologia, entendi que estudo o psico
E para o entender,
Algumas causas da sociedade preciso desenvolver
Pois aqui tudo é variável
E dessa forma, como vou entender meu irmão latino
Se apenas conheço as teorias de quem o aprisionou
E por meio de violência, vandalizou e julgou?
Não posso, e não vou
Se vou ajudar meu povo
Irie conhecer a história cultural
Vou atrás das raízes que os deixaram mal
Para assim arrancá-las
Caminhando pelo fim desse desastre cultural.
Gabriela Oyara
minha gente pega um banco,
vamos logo se aprumar.
vou te contar a história
que tentar até calar
de uma menina bem teimosa
que queria ver o mar.
o mar ficava bem de longe,
o mais longe que podia andar
por isso ninguém fazia fé que Quitéria
Que nem burro tinha, ia conseguir chegar lá.
mas Quitéria era teimosa.
teimosa pra um sarará,
se não tinha um burro ainda,
um burro ela ia achar.
procurou por todo canto
pensou até que endoidar
mas então apareceu um burro
querendo com ela se casar.
Quitéria nunca quis casório,
muito menos namorar
mas Quiteria não era burra
ela queria ver o mar.
Se o burro tinha um carro,
então ele ia a levar.
tudo pronto pro casório
lua de mel no Jaraguá
“Essa noiva tá é grávida.
Pra que pressa pra casar?”
“Essa história tá mal contada.
O que Quiteria foi arrumar?”
mas Quitéria nem ligava,
só queria ver o mar.
o marido não era do melhor,
mas pior também em por aí há
casamento se passou.
hora da estrada pegar
o burro quis dar pra trás,
mas ela não ia deixar.
“disse sim naquela igreja,
o padre pode confirmar
agora tu é meu marido
e vai me levar até o mar”
De longe ela avistou
uma tremenda imensidão azul
seu coração até pulou,
fez festa no seu peito,
tava quase tudo perfeito,
mas só até ela entrar no mar.
a água era quente, não fria,
mas a frieza na barriga
não a deixava entrar
Quitéria não entendia
aquilo que era aquilo
era o que ela tanto queria
então por que não conseguia se jogar?
lembrou então do que sua vó dizia
“escuta aqui minha fia,
se Deus te deu teimosia
de alguma coisa há de serventia,
nem que seja pra duvidar
daquilo que você já acha que há”
se seu medo lhe dizia
pra ficar longe do mar
porque as fortes ondas iriam a derrubar
de onde veio essa certeza
se ela nunca nem entrou no mar
com medo respirou fundo,
mas foi entrando devagar
a água tava uma delícia
e logo foi aprendendo a boiar.
hoje em dia cê não vê mais Quitéria
se não for perto do mar
o burro do marido
quando pro sertão quis voltar
ainda teve a audácia:
“Escolhe é eu ou mar”
Quitéria deu foi gargalhada,
“pois então fico com mar,
sou tão livre quanto ele
não é você que vai me montar.”
e por isso tentam até hoje
a história calar
para que não tenha outra Quitéria
que o mundo queira desbravar
que nenhuma outra queira ser
tão livre e grande
quanto Quitéria e seu mar.
Gabriela Oyara
João nasceu menino
Enxoval azul e carrinhos
Seu destino era conquistar o mundo
Maria nasceu menina
Enxoval rosa e casinhas
Seu destino não era seu para que ela pudesse conquistar
Sempre souberam que eram menino e menina
Antes mesmo de saber o que era menino ou menina
João tem que brincar de bola
E não pode dançar
Maria já tinha sua filha
A boneca Letícia
Mesmo que nem de boneca gostasse de brincar
Maria não entendia
Por que que ser menina
Era um coisa que a prendia
Não entendia porque enquanto seu irmão brincava
Ela já ajudava a mãe em casa
João não entendia também
O que era ser homem
Mas aprendeu a performar
Se um bicho aparecia em casa
Ele quem tinha que matar
Com 12 anos Maria já era mulher
Com 18 ele era menino
Maria e João nunca se viram
Ela não gostaria dele, um menino
Preferia com as meninas falar
Com as meninas dançar
Com as meninas amar
João não teria problema com Maria
O problema era com João
Era inteligente, bonito e até interessante
Mas em nenhum instante
João era João
Em casa era complicado
Maria não podia namorar
Não com quem queria
João não existia
E essa realidade o consumia
Maria se mudou assim que conseguiu
Pegou suas roupas, seu gato e saiu
O destino uma vez negado,
Começou a ser conquistado
João entendeu que o destino que tinha nunca foi dele
Porque João não existia
E sim mais uma Maria
Que sempre quis ser livre mas tinha prisão justamente no que devia a libertar
Maria conheceu Maria
Que apresentou um novo destino a Maria
Que amou ela em todo seu ser
E agora elas, vivem juntas o alvorecer.
Se isso é amor
Me matando lentamente com seus quereres
Me privando da alegria
Me roubando a minha paz
Se isso é amor
Me fazendo se sentir um descarte
Um produto que você comprou um dia, mas nunca soube fazer uso, então jogou fora
Duvidando e subjugando todas as minhas verdades e vontades
Que para voce, são apenas besteiras
Porque voce não consegue entender qualquer dor que não seja a sua
Se isso é amor
Que me abandona sempre que eu não sou o que você projetou sobre sua sombra
Uma cópia sua.
Mas eu nunca serei sua cópia.
Sempre que você está errado
você fica irritado
como o se meu saber fosse uma ameaça
então fala alto
como se tentasse apagar no grito e silenciar tudo que sei
Você até mesmo conseguiu
Por um tempo, mas já se foi o tempo
Se isso é amor
Por que você me julga por fraca quando não tenho forças pra sair da cama
Força minha que foi embora por tentar sustentar uma casa
Você prefere viver sozinho a sua ilusão que ter uma família
Você prefere viver na sombra
E quer que todos se prendam nela junto porque você tem medo da luz
Se isso é o seu amor
Eu prefiro que você me odeie
Que cruze o lado da rua se me ver passar
Que bloqueei meu número de seu celular
Que não me veja, não me procure
Não pense em mim
Me mate e me apague da sua vida
Me mate para que eu possa renascer
Livre do teu olhar
Sempre cheio de críticas e pessimismo
Livre do sabor de fel que sinto na minha boca enquanto escrevo um poema sobre o seu amor
Gabriela Oyara