Gabriela Oyara
Poema

Quitéria - Cordel

por Gabriela Oyara

minha gente pega um banco,
vamos logo se aprumar.
vou te contar a história
que tentar até calar
de uma menina bem teimosa
que queria ver o mar.

o mar ficava bem de longe,
o mais longe que podia andar
por isso ninguém fazia fé que Quitéria
Que nem burro tinha, ia conseguir chegar lá.

mas Quitéria era teimosa.
teimosa pra um sarará,
se não tinha um burro ainda,
um burro ela ia achar.

procurou por todo canto
pensou até que endoidar
mas então apareceu um burro
querendo com ela se casar.

Quitéria nunca quis casório,
muito menos namorar
mas Quiteria não era burra
ela queria ver o mar.
Se o burro tinha um carro,
então ele ia a levar.

tudo pronto pro casório
lua de mel no Jaraguá
“Essa noiva tá é grávida.
Pra que pressa pra casar?”
“Essa história tá mal contada.
O que Quiteria foi arrumar?”

mas Quitéria nem ligava,
só queria ver o mar.
o marido não era do melhor,
mas pior também em por aí há

casamento se passou.
hora da estrada pegar
o burro quis dar pra trás,
mas ela não ia deixar.
“disse sim naquela igreja,
o padre pode confirmar
agora tu é meu marido
e vai me levar até o mar”

De longe ela avistou
uma tremenda imensidão azul
seu coração até pulou,
fez festa no seu peito,
tava quase tudo perfeito,
mas só até ela entrar no mar.

a água era quente, não fria,
mas a frieza na barriga
não a deixava entrar
Quitéria não entendia
aquilo que era aquilo
era o que ela tanto queria
então por que não conseguia se jogar?

lembrou então do que sua vó dizia
“escuta aqui minha fia,
se Deus te deu teimosia
de alguma coisa há de serventia,
nem que seja pra duvidar
daquilo que você já acha que há”

se seu medo lhe dizia
pra ficar longe do mar
porque as fortes ondas iriam a derrubar
de onde veio essa certeza
se ela nunca nem entrou no mar

com medo respirou fundo,
mas foi entrando devagar
a água tava uma delícia
e logo foi aprendendo a boiar.
hoje em dia cê não vê mais Quitéria
se não for perto do mar

o burro do marido
quando pro sertão quis voltar
ainda teve a audácia:
“Escolhe é eu ou mar”
Quitéria deu foi gargalhada,
“pois então fico com mar,
sou tão livre quanto ele
não é você que vai me montar.”

e por isso tentam até hoje
a história calar
para que não tenha outra Quitéria
que o mundo queira desbravar
que nenhuma outra queira ser
tão livre e grande
quanto Quitéria e seu mar.
Gabriela Oyara

Este poema se publica en el portugués original. Traducir el verso cambiaría su ritmo y su rima.

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