Gabriela Oyara
Poema

A tempestade

por Gabriela Oyara

Quando ela chegou, eu não fiquei surpresa
foram anos de dias de chuva e sol
Com o clima mudando bem quando eu estava prestes a me acostumar com a temperatura

Sua chegada foi anunciada pelos deuses
prevista em todos os calendários
uma chuva sem fim
um dilúvio que acabou com toda vida na terra

Precisei me acostumar com o mundo caindo em lágrimas
Precisei aprender a sair de casa na chuva
Enfrentar dia após dia, esperando pelo fim do inverno

Esperei tanto que parei de acreditar
Acreditar que um dia veria a luz do sol outra vez
Acreditar até mesmo que esse sol algum dia foi real
Presa numa tempestade nunca antes vista igual

Passei a acreditar também que não devia sair mais na chuva
Sair por quê? Para voltar mais molhada?

Lembrava de quando saia na chuva
E às vezes era surpreendida pelo sol

Achei que era delírio
As lembranças, o anseio por equilíbrio
Equilíbrio esse que nunca conheci

Sempre foi tudo ou nada
Ou um sol que cega quem olha em sua direção
Que queima, seca e mata
Que derrete toda a sanidade como quem derrete gelo

Ou então a chuva, que leva tudo que está no seu caminho
Arranca árvores, destruindo ninhos
Que lava a alma, até que não exista mais cor naquilo que um dia foi colorido

Mas por bem ou mal, os dias de sol e chuva intercalavam
E eu me acostumei com isso
Mas a grande tempestade durou anos
E parecia sem fim

Dias, anos, década
Uma década inteira sem ver o brilho sol
Sozinha num abrigo que construí
Feito com os galhos que cairam dos ninhos que a chuva derrubou
E parecia o meu fim

Alguns dias a chuva era tão forte que assustava
De longe você ouvia as trovejadas
Em outros mais fracas

E um dia então,
Durante o chuvisco,
decidi sair novamente na chuva
Decidi ouvir o delírio que me lembrava do sol

Ela não parou por um só minuto
Mas em alguns locais, encontrei abrigo
Mesmo que no fim do dia
Eu me molhasse outra vez no caminho de volta ao ninho

Fui desenvolvendo uma tolerância à chuva
Talvez ela não fosse minha inimiga
Talvez ela fosse nada,
a não ser uma mudança de clima

Aprendi que posso aprender a viver
Mesmo em uma tempestade sem fim
O poder que dava a chuva, ao sol, ao clima
Retornei para mim

Percebi que mesmo quando chove
Ainda existe o sol
Até quando não consigo ver
Pois se ele não existisse,
Eu não enxergaria nada,
Tudo seria escuridão
e não haveria a chuva

A tempestade então acabou
Mas o sol ainda não se mostrou
Não como ele era antes
Ele não queima, aquece
E às vezes, ainda chove
Mas a chuva não destroi mais
Como ela fazia antes, e durante
A tempestade

Gabriela Oyara

Este poema se publica en el portugués original. Traducir el verso cambiaría su ritmo y su rima.

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